Patronos

Cadeira nº 17

Alfredo d’Escragnolle Taunay

É curioso e até mesmo estranho constatar que os verbetes de enciclopédias e dicionários brasileiros referentes ao ilustre escritor e político não mencionam sua expressiva atuação no meio musical brasileiro no tempo do Império, particularmente no que se refere a dois de nossos compositores: Pe. José Maurício Nunes Garcia e Antônio Carlos Gomes. Nem mesmo os dicionários de música se dignam incluir esse compositor bissexto; apenas alguns musicólogos a ele se referem. O conhecido episódio que despertou o interesse do Visconde de Taunay pelo Padre Mestre é relatado por seu filho Affonso Taunay no prefácio da obra por ele editada – Uma grande glória brasileira – José Maurício Nunes Garcia, por Alfredo E. Taunay – e publicada em 1930, celebrando o primeiro centenário da morte do compositor.

Conta ele: "Ao assistir em 1872 uma solenidade na Capela Imperial, veio-lhe a revelação do gênio do grande Padre, oriunda da audição de sua música, para ele até então anônima e imediatamente arrebatadora... Nesse sentido, interpelou a um velho cantor da Capela – Bento das Mercês: "Por que quer o senhor saber-lhe o nome ?", retrucou-lhe o músico carrancudo e rebarbativo {grande amigo e copista das obras do compositor}. "Por ter gostado imenso de sua música". "Pois não sabe que é do grande José Maurício Nunes Garcia?".Negativamente abanou a cabeça o curioso inquisitor. "Eis aí", fulminou-lhe o velho cantor depreciativamente. "E é deputado! E é deputado!" Despertado o interesse, iniciou Taunay uma intensa campanha de divulgação e preservação da obra do Padre Mestre, que se estendeu até sua morte em 1899.

Aliás, o interesse da família Taunay por música vinha de longa data. Em anotações datadas de 18/11/1818, o Barão de Taunay, pai do Visconde, comentava a audição de uma obra do Padre José Maurício: "Ouvi hoje uma Missa do Padre José Maurício. Pareceu-me belíssima." (Jornal do Commercio, 06/02/1898). Já em 1880, iniciava Taunay uma série de artigos sobre a vida e a obra do compositor na Revista Musical e de Belas Artes, publicada no Rio de Janeiro pela casa editora de músicas Arthur Napoleão & Miguéz. Dado o grande interesse despertado, foram os artigos republicados na Revista Brasileira de 1895/6. Tratava-se de trabalho pioneiro, precedido apenas por um estudo escrito por Manuel de Araújo Porto Alegre – Apontamentos sobre a vida e a obra do Padre José Maurício Nunes Garcia, publicado no tomo XIX (1856) da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. E a campanha de Taunay continuava, sempre na mesma intensidade, pleiteando agora o levantamento e a publicação das obras do compositor e contando com o apoio de vários músicos brasileiros, entre eles Leopoldo Miguéz e Alberto Nepomuceno, e ainda do prestigiado crítico musical do Jornal do Commercio – Rodrigues Barboza.

Em 1897, sai publicada a primeira obra do Padre Mestre – o Requiem – e logo no ano seguinte, a Missa em Si bemol, precedida de um "esboceto biográfico" por Taunay, ambas impressas, por subscrição pública, pela Casa Bevilacqua. Acompanhando o desenrolar dos acontecimentos, Taunay publicava também, no Jornal do Commercio, várias notícias, entre elas a resolução de Nepomuceno de aceitar transcrever o Requiem (02/04/1896); o êxito alcançado com a publicação das duas partituras (16/09/1897); e a carta de agradecimento pela colaboração recebida na publicação da Missa em Si bemol (1898) – obra essa que chegou a ser executada na residência dos Taunay. Por ocasião da inauguração e sagração da Igreja de Nossa Senhora da Candelária, foi executada a Missa Festiva (1826) – última obra do Padre Mestre. Graças ainda ao prestígio de Taunay, o Jornal do Commercio noticiava: "O Visconde de Taunay e a sagração da Candelária", em 09/07/1898. Além da obra anteriormente citada, escreveu Taunay Dois Artistas Máximos – José Maurício e Carlos Gomes, publicada em São Paulo pela Editora Melhoramentos.

O relacionamento de Taunay com Carlos Gomes foi de outra natureza – de intelectual, de político e de conselheiro amigo, como atesta a correspondência publicada, em 1910, pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro v. LXXIII. É conhecida sua atuação, a pedido do compositor, sugerindo o tema da futura ópera Lo Schiavo, tema esse influenciado pela conturbada época em que vivia o país com o movimento abolicionista. Convidado pela Sociedade Congresso Militar, pronunciou Taunay, em 1880, um discurso – "Homenagem a Carlos Gomes" – publicado por G. Leuzinger & Filhos. Justifica-se portanto, plenamente, a inclusão de Taunay como patrono de uma das cadeiras da Academia Brasileira de Música.


Início da Página