Patronos

Cadeira nº 05

Padre José Maurício Nunes Garcia

É a personalidade mais importante da música brasileira no período colonial. Sua importância não se restringe somente ao campo composicional, mas abrange também a figura do intérprete e do pedagogo.

Nasceu e faleceu no Rio de Janeiro (1767-1830) onde desempenhou todas as suas atividades musicais. Seus pais eram descendentes de escravos. A carreira eclesiástica teria sido uma saída para a ascensão social e a possibilidade de estudar e se dedicar à musica.

Especula-se sobre sua formação musical, havendo notícias de que estudou com o musicista mineiro Salvador José. Na antífona "Tota Pulchra" para coro a 4 vozes (solo de soprano), flauta e cordas, composta aos dezesseis anos, já aparecem as qualidades do criador.

Com 17 anos assina o "compromisso de fundação" da Irmandade de S. Cecília, misto de organização religiosa e sindical da época. Esta participação marca o início de uma vida de trabalho musical exaustivo que afetou profundamente a saúde do musicista anos mais tarde.

Aos 25 anos foi ordenado sacerdote e em 1798 é nomeado Maestro de Capela da Sé e Catedral do Rio de Janeiro, onde, no entanto, já atuava como músico e compositor . As atividades musicais nas igrejas, na época, eram intensas. José Maurício atuava como organista, compositor e regente, não apenas na Catedral, mas em outros templos, destacando-se a Igreja da Irmandade de S. Pedro dos Clérigos, da qual também fazia parte.

Mas, a atividade de professor já havia começado em 1798, com seu curso gratuito de música, que atendia aos jovens pobres. Tal curso foi o celeiro de músicos para a Sé, depois Capela Real e Imperial, bem como para as atividades operísticas da Cidade. Lá formaram-se cantores, instrumentistas e compositores, bem como modinheiros, já que o Padre era um deles. Foi a "aula gratuita", por sua vez, que inspirou um de seus discípulos na criação de um estabelecimento maior e gratuito de ensino musical: Francisco Manuel da Silva foi o fundador e primeiro diretor do Imperial Conservatório de Música, hoje a Escola de Música da UFRJ. Destacaram-se entre seus alunos Francisco da Luz Pinto, Cândido Inácio da Silva, Joaquim Thomaz da Cantuária, embora nenhum tenha atingido a qualidade artística do Mestre. A atividade de professor não se limitou só às aulas. Escreveu manuais teóricos, destacando-se o "Compêndio de Música e Methodo de Pianoforte" escrito para seus filhos José Maurício Jr. e Apolinário, este último organista profissional.

Como intérprete era aplaudido improvisador e competente redutor de partituras orquestrais ao teclado. Esteve sempre informado das novidades musicais européias, apesar das dificildades de comunicação. Foi o regente da primeira audição no Brasil do "Requiem" de Mozart e, possivelmente, também da "Criação" de Haydn.

Durante a permanência de João VI no Brasil, viveu a fase áurea de sua vida, apesar das perseguições do "Salieri português" Marcos Portugal, sendo condecorado com o hábito da Ordem de Cristo. Porém, as exigências ao compositor e regente minavam a saúde.

Foi nessa época que chegou ao Brasil o compositor austríaco Sigismund Neukomm, discípulo de Haydn, que impressionado com a qualidade artística de José Mauricio escreveu um artigo publicado na Europa onde chamava a atenção para o Mestre brasileiro.

A volta do Rei para Portugal e os acontecimentos seguintes causaram a decadência total da Capela Real e de toda a atividade artística no Rio de Janeiro. José Maurício doente e sem recursos financeiros ainda sobreviveu quase nove anos, compondo e atuando dentro das suas possibilidades.

A figura do compositor, porém, é a de maior interesse. Restam hoje acima de duas centenas de composições de José Maurício, sendo a maioria absolutíssima de música religiosa. Não faltam ao catálogo obras instrumentais, corais não religiosas e duas modinhas. Destacam-se obras primas como as Novenas de S. Pedro, Nossa Senhora do Carmo e Santíssimo Sacramento; os motetos para voz solista e orquestra "Te Christe solum novimus" e "Creator alme siderum; os motetos para coro e orquestra "Tanquam Aurum" e os dois motetos em honra a S. João Batista; motetos para coro a capela e pequenas jóias como os hinos e ofertórios. Pontos máximos da obra são a "Missa de Réquiem" (1816) inspirada na de Mozart e a Missa "Santa Cecília" sua última obra (e última atuação como regente). Na Missa "Santa Cecília" parece ter deixado tudo o que restava de sua força física e da sua inspiração numa despedida à vida e à Arte. (E.A.)

Obras principais
Música dramática: Le Due gemelle; Coro para o entremês (1808); O Triunfo da América (1809); Ulisséia (1809).
Música orquestral: Sinfonia fúnebre (1790); Sinfonia tempestade.
Modinhas: Beijo a mão que me condena; No momento da partida.
Música instrumental: Doze divertimentos (1817).
Música sacra: Tota pulchra es Maria (1783); Ecce sacerdos (1798); Bendito e louvado seja (1814 e 1815); Christus factus est (1798?); Miserere para Quarta-feira de trevas (1798); Judas mercator (1809); Matinas da ressureição (1809?); Libera me (1799); Missa de Réquiem (1799); Ofício de defuntos (1799); Missa de Requiem (1809); Missa de Réquiem (1816); Missa de Santa Cecília (1826).


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