Academia Brasileira de Música
Um espaço espiritual do músico brasileiro na Casa de Villa-Lobos
Por Ricardo Tacuchian
Quando Villa-Lobos fundou a Academia Brasileira de Música,
no dia 14 de julho de 1945, o seu modelo foi a Academia de França. Tratava-se de uma
instituição honorífica que reuniria 40 personalidades dentre as mais notáveis do meio
musical brasileiro. Desde então a Academia vem sofrendo algumas modificações procurando
se adaptar aos novos tempos.
O espírito de Academia é tão remoto quanto a Escola de Platão.
Entretanto, as primeiras Academias, no sentido formal, surgiram na Europa, no século XVI,
como a Academia do Palácio (Paris,1570) ou a Academia de Florença (1582). Eram
associações de homens de letras, artes e ciências. Em Portugal, as Academias dos
Generosos (1647) e a dos Singulares (1663) são as mais antigas de que se tem notícia. No
Brasil, esta prática acadêmica e associativa de caráter espiritual e cultural se inicia
com a Academia Brasílica dos Esquecidos, fundada pelo Vice-Rei do Brasil, Vasco Fernandes
Cesar de Menezes, na Bahia e que teve uma duração efêmera (1724-1725). A partir desta
data surgiram dezenas de outras Academias no Brasil.
De todas as instituições congêneres, uma das que alcançou maior
notoriedade internacional e até hoje é uma espécie de paradigma para outras
associações do mesmo tipo foi a Academia Francesa, fundada por Richelieu em 1635. A sua
contra parte brasileira é a Academia Brasileira de Letras, fundada no Rio de Janeiro em
1896 por iniciativa de Lúcio de Mendonça, e que teve Machado de Assis como seu primeiro
presidente.
Villa-Lobos, em 1945, pretendia reunir os nomes mais ilustres de nossa
música em prol da cultura e da educação musical do país. O grande compositor carioca,
primeiro presidente da Academia, deixou, em testamento, metade de seus direitos autorais
para serem aplicados pela instituição na difusão de sua obra, dos demais acadêmicos e
da música brasileira em geral. Dois anos depois da fundação, o Decreto Federal 23160 de
06/06/47 considerou a Academia um Órgão Técnico Consultivo do Governo Federal.
Logo após a sua fundação, a Academia Brasileira de Música passou a
contar com cinqüenta Cadeiras, ocupadas, apenas, por compositores e musicólogos.
Funcionava, paralelamente, um quadro de Membros Intérpretes e outro de Membros
Correspondentes. Os Patronos e Fundadores das Cadeiras deste quadro original podem ser
conhecidos através da série de textos que Andrade Muricy escreveu para o Jornal do
Commercio nos anos de 1961 e 1962, assim como na listagem que aparece no livro Elementos
Fundamentais da Música, de Florêncio de Almeida Lima (Rio de Janeiro: Ed. Do Autor,
1958).
Durante a presidência de Francisco Mignone, foi realizada ampla reforma
de Estatuto e Regimento da Academia, que passou a contar com apenas quarenta Cadeiras, a
exemplo da Academia de Letras. Em razão disto, doze artistas deixaram de ser Patronos de
Cadeiras, uma vez que, além dos dez que davam nomes a Cadeiras extintas, dois outros
abriram espaço para José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita e Sigismund Neukomm. Foram
eles: Euzébio de Matos, Damião Barbosa de Araújo, José Pereira Rebouças, João F.
Souza Coutinho, José Pedro de SantAna Gomes, Domingos José Ferreira, Frederico
Nascimento, Roberto Kinsmann Benjamin, José Rodrigues Barbosa, Assis Pacheco, Manuel
Faulhaber e Delgado de Carvalho.
Por ocasião desta reforma, não ocorreu apenas eliminação de Cadeiras e
Patronos, mas total redistribuição de Patronos e Acadêmicos Fundadores pelas Cadeiras
escolhidas como definitivas. Os Titulares de Cadeiras extintas foram localizados em
Cadeiras cujos fundadores já haviam falecido, razão pela qual algumas das quarenta
Cadeiras passaram a contar com dois Fundadores.
Durante a presidência de Ricardo Tacuchian foi realizada uma outra
reforma nos Estatutos e Regimentos da Academia, quando foi extinto o antigo quadro de
Membros Intérpretes. Os membros intérpretes que ainda eram vivos foram absorvidos no
quadro de Acadêmicos Efetivos e, a partir daí, os intérpretes passaram a ser
considerados candidatos em potencial para as futuras vagas que ocorressem. Mais tarde, o
mesmo ocorreu em relação à figura do Educador Musical.
Desde seus primórdios já passaram pela Academia mais de 100 acadêmicos,
entre eles Radamés Gnattali, Martin Braunwieser, José Siqueira, Lorenzo Fernândez,
Cláudio Santoro, Luiz Heitor Corrêa de Azevedo, Camargo Guarnieri, Francisco Mignone,
Guerra-Peixe, Renato Almeida, Cleofe Person de Mattos, Mario Tavares e José Maria Neves,
para citar apenas alguns entre os já falecidos. Dentre os membros intérpretes figuraram
nomes como os de Guiomar Novaes, Magdalena Tagliaferro, Antonieta Rudge, Arnaldo Estrella,
Magdalena Lébeis, Paulina d'Ambrósio, Iberê Gomes Grosso, Eugen Szenkar e Alice
Ribeiro. A ABM possui, ainda, um prestigioso quadro de Membros Correspondentes em várias
partes do mundo. Entre os falecidos podemos citar os nomes de Carleton Sprague Smith ,
Arthur Rubinstein e Mieczyslaw Horoszowski (USA); e Marcel Beaufils, Florent-Schmitt,
Margueritte Long e Michel Philippot (França).
Os primeiros presidentes da ABM foram Villa-Lobos, Andrade Muricy,
Francisco Mignone e Marlos Nobre. Após a administração de Francisco Mignone, seu
sucessor permaneceu no cargo por longo período, provocando uma reação dos acadêmicos,
com a eleição do Embaixador Vasco Mariz para Presidente da Academia no período
1991-1993. Infelizmente, o insigne musicólogo não pode tomar posse, devido a mandados de
segurança do então presidente em exercício. Finalmente, em 1993, a ABM inicia uma nova
era de sua história, passando a ter uma importante presença na vida musical do país. Os
presidentes que se sucederam, Ricardo Tacuchian (1993-1997), Edino Krieger (1998-2001) e
José Maria Neves (iniciando o mandato em 2002 mas vindo a falecer 11 meses após, sendo
substituído por Edino Krieger) estruturaram administrativa e artisticamente a Academia
com gestões transparentes, abrindo espaço para a participação da vida acadêmica para
todos os seus membros. As prestações contábeis passaram a ser rigorosamente técnicas,
os textos dos regulamentos da entidade são respeitados e as eleições para as cadeiras
vagas são realizadas dentro do prazo regimental. A partir desta nova fase, a Academia
alugou uma sede, empregou funcionários, criou uma estrutura administrativa funcional e
contratou um escritório de advocacia para administrar os Direitos Autorais de
Villa-Lobos. Além disso, vários projetos vitoriosos foram lançados como a Bibliografia
Musical Brasileira (um ambicioso sistema de banco de dados alimentado com informações
sobre os trabalhos a respeito de música publicados no Brasil, ou sobre música brasileira
publicados em qualquer parte do mundo), o Banco de Partituras de Música Brasileira, as
Séries Brasiliana (concertos de Música Brasileira) e Trajetórias (depoimentos públicos
de personalidades do meio musical brasileiro), a publicação da revista quadrimestral
Brasiliana, os concursos de monografias, os projetos de educação musical em comunidades
carentes, a criação do selo discográfico ABM Digital, entre muitos outros projetos.
Em 2002, o presidente José Maria Neves deu início ao processo de compra
da sede própria da Academia, o que foi concluído pelo presidente que o sucedeu Edino
Krieger. A nova Casa de Villa-Lobos ocupa todo o andar de um prédio, no centro da cidade
de seu fundador, com espaços reservados a reuniões, recitais, arquivos musicológicos e
moderna estrutura administrativa.
Assim, a ABM se firma na comunidade musical de nosso país como uma
respeitável instituição que trabalha pela preservação da memória nacional, pela
educação musical do jovem e sua inclusão social como cidadão, pela formação de
platéias, pelo estímulo ao intérprete e ao compositor brasileiros e pelo apoio à
pesquisa. Seus membros, em número de 40, entre compositores, intérpretes, musicólogos e
educadores são eleitos pelos próprios acadêmicos de forma absolutamente democrática e
procurando escolher novos "imortais" segundo os critérios da ética
profissional, do mérito cultural e de uma folha de serviços em prol da música no Brasil
e que tenham alcançado uma projeção nacional ou internacional.
O conceito de Academia, hoje, está bem distante de Platão, da
Renascença ou da Academia dos Esquecidos. A ABM é uma entidade moderna, ágil, com
projetos em andamento e tecnicamente preparada para participar da vida cultural do país.
Além de seu cunho honorífico, a finalidade da Casa de Villa-Lobos é se constituir num
espaço espiritual do músico brasileiro. Lá, todos os músicos, confrades formais ou
não, estão unidos em prol do mesmo ideal: a preservação da memória musical
brasileira, o incentivo do artista nacional e a abertura de novos horizontes para
gerações futuras. Que as musas continuem inspirando os acadêmicos para alcançarem
estes objetivos.
.
Quadro Geral
Cad. |
Patrono |
Fundador |
Antecessores |
Ocupante atual |
1 |
José de Anchieta |
Heitor Villa-Lobos |
Adhemar Nóbrega |
Marlos Nobre |
2 |
Luíz Álvares Pinto |
Fructuoso Vianna |
Waldemar Henrique |
Vicente Salles |
3 |
Domingos Caldas Barbosa |
Jayme Ovalle e Radamés Gnattali |
Bidu Sayão |
Cecília Conde |
4 |
José Joaquim Emerico
Lobo de Mesquita |
Oneyda Alvarenga |
- |
Ernani Aguiar |
5 |
José Maurício Nunes Garcia |
Frei Pedro Sinzig |
Pe. João Batista Lehmann e
Cleofe Person de
Mattos |
Roberto Tibiriçá |
6 |
Sigismund Neukomm |
Antônio Garcia de Miranda Neto |
- |
Ernst Mahle |
7 |
Francisco Manoel da Silva |
Martin Braunwieser |
- |
Mercedes Reis Pequeno |
8 |
Pedro I |
Luís Cosme e José Siqueira |
Alice Ribeiro e Arnaldo Senise |
Paulo Bosisio |
9 |
Thomaz da Cunha Lima Cantuária |
Paulino Chaves |
Brasílio Itiberê |
Osvaldo Lacerda |
10 |
Cândido Ignácio da Silva |
Otávio Maul |
Armando Albuquerque |
Regis Duprat |
11 |
Domingos da Rocha Mussurunga |
Savino de Benedictis |
- |
Mario Ficarelli |
12 |
José Maria Xavier |
Octávio Bevilacqua |
José Maria Neves |
John Neschling |
13 |
José Amat |
Paulo Silva e
José Cândido de Andrade Muricy |
- |
Ronaldo Miranda |
14 |
Elias Álvares Lobo |
Dinorah de Carvalho |
- |
Eudóxia de Barros |
15 |
Antônio Carlos Gomes |
Oscar Lorenzo Fernândez |
Renzo Massarani |
José Antônio Rezende de Almeida Prado |
16 |
Henrique Alves de Mesquita |
Ary José Ferreira |
- |
Henrique Morelenbaum |
17 |
Alfredo d'Escragnolle Taunay (Visconde de
Taunay) |
Francisco Casabona |
Yara Bernette e
Belkiss Carneiro de Mendonça |
Guilherme Bauer |
18 |
Arthur Napoleão |
Walter Burle Marx |
- |
Sônia Maria Vieira Rabinovitz |
19 |
Brasílio Itiberê da Cunha |
Benedito Nicolau dos Santos |
Helza Cameu |
Roberto Duarte |
20 |
João Gomes de Araújo |
João da Cunha Caldeira Filho |
- |
Sérgio Oliveira de Vasconcellos Corrêa |
21 |
Manuel Joaquim de Macedo |
Cláudio Santoro |
- |
Luís Paulo Horta |
22 |
Antônio Callado |
Luiz Heitor Corrêa de Azevedo |
- |
Jorge Antunes |
23 |
Leopoldo Miguez |
Mozart Camargo Guarnieri |
- |
Laís de Souza Brasil |
24 |
José Cândido da Gama Malcher |
Florêncio de Almeida Lima |
- |
Norton Morozowicz |
25 |
Henrique Oswald |
Ayres de Andrade Jr. |
- |
Aylton Escobar |
26 |
Euclides Fonseca |
Valdemar de Oliveira |
- |
Anna Stella Schic Philipot |
27 |
Vincenzo Cernicchiaro |
Sílvio Deolindo Froes |
Francisco Chiaffitelli,
Jayme Diniz e José
Penalva |
Ilza Nogueira |
28 |
Ernesto Nazareth |
Furio Franceschini |
Aloysio de Alencar Pinto |
Flávio Silva |
29 |
Alexandre Levy |
Samuel Arcanjo dos Santos |
Ênio de Freitas e Castro |
Ricardo Tacuchian |
30 |
Alberto Nepomuceno |
João Baptista Julião |
Mozart de Araújo e
Mário Tavares |
João Guilherme Ripper |
31 |
Guilherme Theodoro Pereira de Mello |
Rafael Baptista |
Ernst Widmer |
Manuel Veiga |
32 |
Francisco Braga |
Eleazar de Carvalho |
- |
Jocy de Oliveira |
33 |
Francisco Valle |
Antônio de Assis Republicano |
Francisco Mignone e
Lindembergue Cardoso |
Raul do Valle |
34 |
José de Araújo Vianna |
Newton Pádua |
Cesar Guerra-Peixe |
Edino Krieger |
35 |
Octavio Meneleu Campos |
Eurico Nogueira França |
- |
Jamary Oliveira |
36 |
J. A. Barrozo Netto |
José Vieira Brandão |
- |
Lutero Rodrigues |
37 |
Glauco Velasquez |
João Itiberê da Cunha |
- |
Alceo Bocchino |
38 |
Homero Sá Barreto |
João de Souza Lima |
- |
Turíbio Santos |
39 |
Luciano Gallet |
Rodolfo Josetti |
Rossini Tavares de Lima e
Maria Sylvia Pinto |
Amaral Vieira |
40 |
Mário de Andrade |
Renato Almeida |
- |
Vasco Mariz |
|