Capa da Brasiliana - N.9Brasiliana

Revista Brasiliana
Número 9 - Setembro de 2001

Coordenação Editorial - José Maria Neves

Capa: Pintura de Aylton Thomaz (Foto: Fausto Fleury)
Produção: Andréa Fraga D'Egmont
Projeto Editorial e Edição: Heloisa Fischer
Editoração
: Silvana Mattievich
Versões em Inglês: Paulo Henriques Brito
Revisão: Cristiane Dantas
Distribuição: Paulo Garcia
Tiragem: 1.000 exemplares


- Editorial, por Edino Krieger, presidente da Academia Brasileira de Música

Resumo dos artigos (em português e inglês) e perfil dos autores

- Interpretação e voz
...
Lucila Tragtenberg

- O órgão da Sé Catedral de Mariana: um caso particular no relacionamento musical luso-brasileiro
... Gerhard Doderer

- Um Réquiem para Villa-Lobos
... Ricardo Tacuchian


Editorial

O interesse que vêm despertando as edições da Academia Brasileira de Música – os CDs do selo ABM Digital e de co-edições, a revista Brasiliana, o Banco de Partituras e a Bibliografia Musical Brasileira - indica a necessidade de um investimento maior em sua distribuição e circulação, de modo a que possam atingir um número crescente de interessados potenciais.

Dada a inexistência, no Brasil, de um sistema oficial ou privado de distribuição da produção cultural independente, a solução é buscar formas alternativas de distribuição. E é isso o que a ABM se esforça por fazer.

Assim, o catálogo das nossas edições fonográficas estará sendo encartado, proximamente, nos 5.000 exemplares da revista Concerto, de São Paulo, que atuará também como representante de vendas dos nossos CDs. O catálogo de discos está sendo introduzido também no mercado internacional através de contatos com revendedores dos Estados Unidos e da Europa. E um acordo com VivaMusica!, que já se ocupa da produção executiva da nossa revista, credencia essa operosa equipe para promover também a captação de anunciantes e a ampliação do quadro de assinantes da Brasiliana, com vistas a reduzir os custos de produção sem comprometer o padrão gráfico e editorial. Uma atualização dos preços de venda avulsa e de assinatura está também prevista a partir do próximo número.

Por sua vez, o Banco de Partituras de Música Brasileira para Orquestra começa a receber pedidos de orquestras e regentes de todo o país e seu Catálogo Geral, bilingüe, que está sendo enviado a centenas de orquestras de todo o mundo, será enriquecido por mais 30 obras que serão digitadas até o final deste ano, quando um segundo Catálogo será editado, sempre com o apoio da Secretaria de Música e Artes Cênicas e do Fundo Nacional de Cultura do MinC.

Finalmente, a Bibliografia Musical Brasileira está disponibilizada através da Internet, mediante aquisição de uma senha de acesso, que será fornecida sem custos para os membros da ABM.

Quanto à bela capa da presente edição, ela representa também uma inovação: reproduz um óleo sobre tela do artista popular Aylton Thomaz, produzida em seu modesto atelier na Lapa e adquirida pela ABM numa exposição de rua, junto ao Metrô do Largo da Carioca.

Edino Krieger

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Interpretação e voz
Interpretação. Trata-se de um fenômeno complexo. Alguns pontos são aqui abordados como o papel desempenhado pelo tempo enquanto tempo real (fluxo sonoro) ao qual o intérprete precisa trazer a obra, esta circunscrita ao tempo imobilizado congênito à natureza da partitura; a criação gerada pelo compositor em seu tempo único (diferente do presente na partitura e do qual o intérprete vivenciará); a existência da partitura gerando em si mesma, o término de um processo de criação (composição) e ao mesmo tempo, a abertura de várias possibilidades interpretativas. Questões reflexivas sobre a interpretação seguidas pela imersão na partitura interna de três intérprete-cantores (aproximando-nos de seus processos de criação) relativa à três peças do universo da música indeterminada e cênica, que se deu através de seus relatos. Procedimento este escolhido visando o acesso às motivações internas, aos porquês de suas interpretações de um elemento musical criado pelo compositor. Reflexões sobre a prática interpretativa de um ângulo teorico/prático da questão.

Abstract
Interpretation and voice
Interpretation is a complex phenomenon. Some of the points examined here are the role played by time as real time, the sound flow into which the interpreter must bring the work out of the frozen time of the written score; the creation generated by the composer in his unique time, different from the present tense of the score which is to be experienced by the interpreter; the existence of the score generating in itself the end of a process of creation (composition) and at the same time the opening of various interpretive possibilities. The reflections on interpretation are followed by immersion in the inner score of three interpreters-singers (bringing us close to their creative processes) in relation to three pieces from the universe of undetermined and scenic music, on the basis of statements by them. This procedure was chosen in order to provide a glimpse into inner motivations, the whys and wherefores of their interpretations of a musical element created by the composer. There are also reflections on interpretive practice from a theoretical-practical angle.

Lucila Tragtenberg
Soprano, tem se dedicado à interpretação da música de camara, ópera, contemporânea, multimidia. Mestre pela Escola de Música da UFRJ. Atualmente é Professora da PUC/SP, Conservatório Brasileiro de Música (RJ) e Seminários de Música Pró- Arte (RJ).

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O órgão da Sé Catedral de Mariana: um caso particular no relacionamento musical luso-brasileiro
É posto em destaque mais uma vez um caso das relações luso-brasileiras em que se viram implicados, na primeira metade do século XVIII, músicos, construtores de instrumentos e melómanos de origem portuguesa, brasileira e alemã. Aos organólogos e organistas interessados na história da construção do rei dos instrumentos é bem conhecido o facto de que se conservaram, desde há muito tempo, nas Sés Catedrais de Faro na costa algarvia, e de Mariana, na proximidade de Ouro Preto, dois órgãos gémeos oriundos de inícios do século XVIII.
Para a discussão relativamente aos autores destes dois instrumentos, acesa desde há uma trintenade anos e ainda não totalmente resolvida, este artigo contribui com novos elementos sobre da história de órgãos construídos em 1700/20 por organeiros alemães e instalados em igrejas de Portugal e Brasil. No que diz respeito ao órgão da Sé Catedral de Mariana, ficou reforçada a hipótese de ser o seu autor Heinrich Hulenkampf e não Arp Schnitger.

Abstract
The organ of the Mariana Cathedral: a case in Portuguese-Brazilian musical relations
This is another examination of a case in Portuguese-Brazilian relations involving Portuguese, Brazilian and German musicians, instrument makers and music lovers in the first half of the eighteenth century. Organists and organ scholars interested in the history of organ-making are well aware of the fact that the organs in the Faro Cathedral, in Algarves, Portugal, and in Mariana, near Ouro Preto, in Minas Gerais, Brazil, are twin instruments dating back from the early eighteenth century. This article contributes to the thirty-year-old unsettled debate concerning the authorship of these two instruments, providing new information relative to the history of these organs, built between 1700 and 1720 by German organ-makers. The new evidence corroborates the hypotheses that the Mariana instrument was built not by Arp Schnitger, but by Heinrich Hulenkampf.

Gerhard Doderer
Gerhard Doderer nasceu na Francónia (Alemanha). Estudou Órgão no Conservatório de Würzburg e doutorou-se em Ciências Musicais na Julius-Maximilians-Universität da mesma cidade. De 1975 a 1981 ensinou no Hermann-Zilcher-Konservatorium da cidade de Würzburg, instituto cuja direção assumiu em 1978. Desde 1982, lecciona na Universidade Nova de Lisboa onde é Professor Catedrático do Departamento de Ciências Musicais. As suas numerosas publicações (algumas delas contempladas com prêmios do Conselho Nacional da Música, da Fundação Calouste Gulbenkian e da Academia Portuguesa da História), os seus recitais de órgão e os cursos e seminários no âmbito das Ciências Musicais que tem vindo a realizar, tanto em paises europeus como extra-europeus, costumam incidir sobre temas ligados a instrumentos e compositores ibéricos dos séculos XVI, XVII e XVIII.

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Um Réquiem para Villa-Lobos
Uma abordagem hermenêutica da Segunda Suite para Orquestra de Câmara de Villa-Lobos considera-a, ao mesmo tempo, como um canto do cisne do compositor e um requiem feito para ele próprio. Este último trabalho de Villa-Lobos é uma síntese de sua trajetória artística com atmosferas claramente européia, amerínida e africana. Apesar de sua simplicidade. A peça preserva elementos que caracterizam o estilo do músico. Além de simbolizar os múltiplos objetivos estéticos do compositor a peça sugere os últimos momentos tão dolorosos de sua vida.

Abstract
A Requiem for Villa-Lobos
An hermeneutic approach of the Second Suite for Chamber Orchestra by
Villa-Lobos points it out not only as a swan-song but also as a requiem for
the composer himself. This last work by Villa-Lobos is a synthesis of his
artistic trajectory, with candidly European, caboclo and African ambiances.
Despite its great simplicity the piece holds elements that characterize the
musician¹s style. Besides symbolizing the composer¹s multiple aesthetic aims
the piece imparts his ultimate self-biography and his current painful soul.

Ricardo Tacuchian
Ricardo Tacuchian é compositor e regente. Doutor em Música pela University of Southern California, Professor Visitante da State University of New York at Albany sob os auspícios da Fulbright Commission, Compositor Visitante em Bellagio, Itália (Rockefeller Foundation), Professor da Universidade do Rio de Janeiro e Membro da Academia Brasileira de Música. Eascreve para as principais revistas especializadas em música no Brasil. No momento é membro do Conselho Consultivo e de Programação do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

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