Capa da Brasiliana - N.7Brasiliana

Revista Brasiliana
Número 7 - Janeiro de 2001

Coordenação Editorial - Ricardo Tacuchian

Capa: Pintura de Ana Maria Bauer
Produção: Andréa Fraga D'Egmont
Projeto Editorial e Edição: Heloisa Fischer
Editoração
: Silvana Mattievich
Versões em Inglês: Paulo Henriques Brito
Revisão: Cristiane Dantas
Distribuição: Paulo Garcia
Tiragem: 1.000 exemplares


- Editorial, por Edino Krieger, presidente da Academia Brasileira de Música

Resumo dos artigos (em português e inglês) e perfil dos autores

- Os Carmelitas e a arte do cantochão
...
Vicente Salles

- Sinfonia das Buzinas: o sublime e o útil na fronteira entre o medo e a ousadia
- Listagem das placas
... Jorge Antunes

- A música, a fala e o rádio - Notas de reflexões
... Arnaldo José Senise

- Dom Pedro II e a música brasileira
... Vasco Mariz


Editorial
Com este Número 7, a revista Brasiliana ingressa confiante no novo século e no novo milênio. Número musical por excelência, indicativo das 7 notas da escala, dos 7 sustenidos e dos 7 bemóis que as alteram, sem esquecer o nosso violão de 7 cordas e as 7 trombetas do Apocalipse, o número 7 é cercado de antigos e misteriosos significados. Além de número primo é também ímpar: "numero Deus impare gaudet", segundo Virgílio. Esperemos, pois, que os bons eflúvios desse número mágico nos bafejem e ajudem a conduzir a ABM a novas e significativas conquistas e realizações.
A destacar, neste número, a par de suas consistentes matérias, seções e informações, é o registro da outorga pela ABM, pela primeira vez, do título de Membro Honorário, previsto em seu Estatuto. E o faz para homenagear uma figura maior do meio musical brasileiro, responsável pela criação de diversas escolas de música de novo tipo, em diversas cidades brasileiras, e pela formação de dezenas de compositores, regentes, professores e instrumentistas, em sua incansável militância musical de 60 anos de Brasil. A láurea, conferida ao Professor H.J. Koellreutter, é também uma homenagem aos seus bem vividos 85 anos, completados recentemente.
Assinale-se ainda, com os nossos agradecimentos, a contribuição, para este número, da artista plástica e Embaixadora Ana Maria Bauer, irmã do compositor Guilherme Bauer, que nos cedeu uma de suas telas com motivos musicais para ser reproduzida em nossa capa.

Edino Krieger

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Os Carmelitas e a arte do cantochão
No livro A Música e o Tempo no Grão-Pará, 1º v., Belém, 1980, o autor tratou da música que se implantou e praticou no bispado paraense, por iniciativa do primeiro titular, o carmelita frei Bartolomeu do Pilar, a partir de 1724. Ao lado dos jesuítas, franciscanos, mercedários e outros religiosos, os carmelitas se distinguiram pela prática e o magistério da música nas missões da Amazônia, que constituía a maior parte do território do Estado do Maranhão e Grão-Pará. O artigo trata de alguns acréscimos à atuação dos carmelitas e revela documento inédito existente na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional que relaciona os irmãos coristas do convento de Belém do Pará.

Abstract
In his previous book "A Música e o Tempo no Grão-Pará", Vol. 1. (Belém, 1980), the author had discussed the establishment and practice of music in the bishopric of Pará thanks to the initiative of the first bishop, Friar Bartolomeu do Pilar, since 1724. Like the Jesuits, the Franciscans, the Mercedarians and members of other orders, the Carmelites were noted for their practice and teaching of music in the Amazonian missions, which included most of the territory of Maranhão and Grão-Pará. The article provides some additional information on the work of the Carmelites and presents an unpublished document found in the manuscript section of the Biblioteca Nacional (National Library) listing the friars who were members of the choir in the Belém convent. Vicente Salles is a regular member of the Academia Brasileira de Música (Brazilian Academy of Music), where he holds seat No. 2, and of the Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Brazilian Historical and Geographical Institute). He has published more than 40 books and pamphlets, most of them dealing with the history of Brazilian music and folklore..

Vicente Salles
Vicente Salles nasceu no Pará em 1931, interessando-se desde cedo pela música e o folclore. Estudou em Belém e se transferiu para o Rio de Janeiro em 1954. É antropólogo formado pela Faculdade Nacional de Filosofia da antiga Universidade do Brasil. Colaborou em jornais e revistas, foi redator da Revista Brasileira de Folclore, organizou e dirigiu a Biblioteca Amadeu Amaral do atual Centro de Folclore da Funarte, dirigiu o Museu da UFPA, em Belém, onde implantou projetos de pesquisa da cultura popular, do cantochão paraense do séc. XVIII, cordel, bandas de música etc. Publicou obras sobre história da música, teatro, folclore, assuntos amazônicos. Membro da Academia Brasileira de Música, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Comissão Nacional do Folclore.

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Sinfonia das Buzinas: o sublime e o útil na fronteira entre o medo e a ousadia
A Sinfonia das Diretas, apresentada em praça pública em 1º de junho de 1984 durante o histórico comício de Brasília, marcou os traços típicos daquilo a que o autor desse artigo chama "estética do medo". A experimentação musical, aliada a uma fascinante pesquisa no domínio da psicoacústica e a uma estratégia arrojada, delineou um percurso na fronteira que separa os terrenos do medo e da ousadia. A orquestra incluía um conjunto instrumental, um coro, sons eletrônicos e cerca de duzentos automóveis tocando buzinas. O resultado foi Música, altamente revolucionária e subversiva, que apontava para novos caminhos estéticos e políticos.

Abstract
The Direct Elections Symphony, performed on a public square on June 1, 1984, during the historic rally for direct elections in Brasília, established the basic features of what the author of this article calls "the aesthetics of fear." Musical experimentation, associated with fascinating research into psychoacoustics and a bold strategy, led to a trajectory on the borderline between the territories of fear and daring. The orchestra included an instrumental group, a choir, electronic sounds and about 200 honking cars. The result was music - music of a highly revolutionary and subversive kind, opening new aesthetic and political perspectives.

Jorge Antunes
Jorge Antunes é compositor, regente e professor titular do Departamento de Música da Universidade de Brasília. É Doutor em Estética Musical pela Sorbonne, Université de Paris VIII. Foi precursor da música eletrônica no Brasil em 1962 e criador da técnica cromofônica de composição musical que utiliza a correspondência entre os sons e as cores. É membro eleito vitalício da Academia Brasileira de Música, ocupante da cadeira nº 22. Atualmente é pesquisador do CNPq e presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica.

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A música, a fala e o rádio - Notas de reflexões
Todas as emoções que a música transmite ela nos comunica em estado puro, em essência, isentas de circunstâncias causais particulares a qualquer indivíduo. O rádio veicula tanto a música como a fala, aonde quer que estejamos, também na absoluta pureza dessas manifestações : sem circunstâncias e sem materialidade alguma. A música e a linguagem da fala não possuem existência material : só existem no interior de quem as ouve. A linguagem é o que se ouve , não o que se escreve. O texto e a partitura são acidentes posteriores ao enunciado da mensagem ; são meios convencionados de reprodução. A música não "representa" nem "simboliza" emoções : ela É , ela mesma, emoção que se destina a comunicar. O seu poder de convicção não tem paralelos nas demais artes. Sendo energia vibratória, a música é energia que age diretamente na energia dos átomos do corpo e na energia dinâmica da nossa consciência ( ''eu''). Por idêntico processo, o rádio "integra" a imagem vibratória oferecida pela fala do locutor à vida interior de quem ouve, numa relação de intimidade não igualada por qualquer outra forma de contato humano. A mesma coisa se dirá do cantor. Por tudo isso, a cultura humanística , a idoneidade, o refinamento emocional, intelectual e espiritual deveriam timbrar a personalidade de todo aquele que milita no rádio, como outrora de fato acontecia, bem como do cantor e de todo o musicista de escol. Virtualmente , toda a beleza, a preservação e o futuro da linguagem, bem com o da educação, repousam na responsabilidade daqueles que adentram, pelo rádio, a intimidade dos nossos aposentos mais íntimos.

Abstract
Whatever emotions music conveys to us come in a pure state, in their essence, devoid of any causal circumstances specific to any one individual. Radio broadcasts both music and speech, wherever one may be, also in a state of absolute purity, with no circumstances or materiality. Music and the language of speech have no material existence outside the listener. Language is what is heard rather than what is written. The text and the musical score are accidental and come after the statement of the message; they are merely conventional forms of reproduction. Music neither "represents" nor "symbolizes" emotions: it is itself the emotion it is intended to convey. Its persuasive power is unparalleled among the arts. Being vibratory energy, music acts directly on the energy of the body's atoms and on the dynamic energy of our consciousness (the "self"). Similarly, radio "integrates" the vibratory image that the speaker's speech proposes to the inner life of the listener, in a relationship marked by an intimacy unequaled by any other form of human contact. The same goes for the singer. For all these reasons, humanistic culture, uprightness, emotional, intellectual and spiritual refinement should be prerequisites of radio workers, as indeed was true in the past, and the same applies to singers and musicians. The beauty, the preservation and the future of language and of education are the responsibility of those who, through the medium of radio, penetrate our most private chambers.

Arnaldo José Senise
Arnaldo José Senise, (1945), musicólogo, natural de Jaú , São Paulo. Diplomou-se em Música e Piano pelo conservatório Oficial da sua cidade, onde , aos 17 anos, já lecionava Harmonia e Análise Musical. Em S. Paulo, fez os Estudos Superiores de Teoria Geral da Música, Harmonia, Fraseologia, Forma e Análise Musical com Sophia Mello Oliveira (1897 - 1980) - esta , fulgurante pianista e professora da Escola de Luigi Chiaffarelli, foi a sistematizadora da Teoria do Fraseado, bem como da Sintaxe da Língua Musical do Ocidente, escrevendo o único Tratado de Fraseologia Musical de que se tem notícia. Com a mesma professora, Senise se especializou na estética da sonoridade e da interpretação pianística, tais como professadas por Chiaffarelli, o Mestre de Guiomar Novaes. É herdeiro testamentário da sua professora. Integrou a primeira diretoria eleita da Sociedade Brasileira de Musicologia, da qual é Sócio Benemérito. Produziu numerosos programas radiofônicos educativos de natureza científicas. Produziu grande ensaio contendo análise inovadora da arte de Bach e explição inaudita da gênese das Bachianas de Villa - Lobos. Desenvolve projeto biográfico sobre Luiz Levy e Alexandre Levy , cuja Sinfonia editou. Entre ensaios, estudos e trabalhos musicológicos, a maior parte de natureza inovadora , conta mais de setenta ( 70 ) publicações. É professor de Análise Musical, de História da Música Brasileira. É também graduado pela Escola de Administração de Empresas da F. G. V. ,  S. Paulo.

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Dom Pedro II e a música brasileira
Dom Pedro II foi um grande patrono das artes e ajudou diversos músicos brasileiros em especial Carlos Gomes. Freqüentava habitualmente os concertos e prestigiava os compositores nacionais. Este artigo menciona os principais beneficiários do monarca.

Abstract
Emperor Pedro II was a major patron of the arts, and provided support to a number of Brazilian musicians, most notably Carlos Gomes. He was a regular concertgoer, and he honored Brazilian composers. This article lists those artists who benefited the most from the Emperor's patronage.

Vasco Mariz
Vasco Mariz (1921) , musicólogo brasileiro, é autor dos livros: "Heitor Villa-Lobos" ( 12 edições, a última em 1991, das quais 6 do exterior ) , "Dicionário Biográfico Musical" ( 3 edições , a última 1991 ) , a "Canção Brasileira" ( 5 edições, a última em 1985 ) . A História da Música no Brasil (5 edições, a última em 2000), Três musicólogos (1985), Claudio Santoro (1994). Ex-presidente da Academia Brasileira de Música (1991-1993).


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