  Revista Brasiliana
Número 4 - Janeiro de 2000
Coordenação Editorial - Ricardo Tacuchian
Capa: Gravura de Sônia Santoro
2a e 3a Capa: Desenho de Liberati
Projeto Editorial e Edição: Heloisa Fischer
Projeto Gráfico: Mila Waldeck
Diagramação:Hybris Design
Versões em Inglês: Ricardo Gomes Quintana
Revisão: Cristiane Dantas
Distribuição: Paulo Garcia
Tiragem: 1.000 exemplares
- Editorial,
por Edino Krieger, presidente da Academia Brasileira de Música
Resumo dos artigos (em português e inglês) e perfil dos
autores
- Reflexões às margem dos 500 anos: A identidade
sonora do Brasil
... Edino Krieger
- As metáforas na música
... Frederico Richter (Frerídio)
- O Silêncio
... Jorge Antunes
- Rio Antigo: as pequenas bandas de música e o
"perigo alemão"
... Carlos Wehrs
- Camargo Guarnieri - o mestre, o músico, o homem
... Eduardo Escalante
- Carlos Gomes e sua música no Brasil
novecentista
... Vicente Salles
- Identidade brasileiras e representações
musicais: músicas e ideologias da nacionalidade
... Samuel Araújo
Editorial
Com este quarto número de sua revista Brasiliana, a Academia Brasileira
de Música saúda o ano 2000 e os 500 anos do Brasil e pede passagem para um renovado
esforço em favor da música brasileira. Encerramos 1999 com algumas conquistas
relevantes, como a Bibliografia da Música Brasileira, agora em fase de instalação na
Internet, a digitação das primeiras obras para o Banco de Partituras de Música
Brasileira para Orquestra (com apoio da Secretaria de Música e Artes Cênicas do
Ministério da Cultura), o lançamento do selo fonográfico próprio ABM Digital e a
continuidade das séries Brasiliana e Trajetórias, já em seu segundo ano, e que terão
prosseguimento e possíveis desdobramentos este ano. Assinale-se também o interesse
despertado, no Brasil e no exterior, pelo terceiro número da nossa revista, dedicado a
Villa-Lobos pelos 40 anos de sua morte.
Neste quarto número, valorizado em sua capa pela bela gravura de Sonia Santoro sobre
fragmentos de partituras de seu pai, Claudio Santoro, e em seu conteúdo por um elenco de
matérias e informações relevantes, assinala-se a renovação do quadro de Acadêmicos,
com a eleição de Cecilia Conde, educadora musical emérita, que passa a suceder Bidu
Sayão na Cadeira No. 3, e de Amaral Vieira, brilhante compositor e pianista, sucessor de
Maria Silvia Pinto na Cadeira No. 39. Ampliado foi também o quadro de Membros
Correspondentes, enriquecido com a eleição de três grandes amigos da música
brasileira, como são David Appleby, dos Estados Unidos, Gerhard Doderer, da Alemanha e
Portugal, e Stanley Sadie, da Inglaterra.
Renovado foi também o mandato da atual Diretoria da ABM, por sugestão de vários
Acadêmicos e deliberação formalizada em dezembro, tendo em vista que nenhuma
candidatura foi inscrita. Entre os desafios que a Diretoria re-eleita se proporá neste
novo biênio de mandato que ora se inicia, inclui-se a conquista de uma sede própria, a
criação de um sistema eficiente de distribuição da produção editorial e fonográfica
independente da música brasileira e a regularização do recolhimento e da distribuição
de direitos autorais de compositores brasileiros de música de concerto. Desafios que
esperamos poder enfrentar e superar com o apoio dos Acadêmicos e de instituicões e
pessoas que compreendem o papel relevante da música brasileira no contexto do
desenvolvimento cultural e econômico do país, e a certeza de que a cultura ocupa um
lugar cada vez mais importante neste limiar do novo século e do novo milênio.
Edino Krieger

Reflexões às margem dos 500 anos: A identidade
sonora do Brasil
A identidade musical brasileira já existia antes do Descobrimento, nos cantos
dos pássaros e nos cantos e danças rituais dos indígenas, e foi se modificando à
medida que chegaram, com os descobridores e os colonizadores, outras manifestações
sonoras. Característica da identidade sonora do Brasil é o sentido de unidade que essa
pluralidade de expressões alcançou. Assinale-se também a formação comum da identidade
nas três vertentes da criação musical brasileira - a folclórica, a popular urbana e a
clássica, com sua multiplicidade de formas, linguagens e expressões.
Abstract
Brazils musical identity was something that already existed before the Portuguese
Discovery and could be discerned in the warbling of birds, as well as in Indian chants and
ritual dances. Other musical influences arrived together with the colonists, bringing
about some changes. The sense of unity that this plurality of expressions occasioned is a
characteristic of Brazils musical identity. It is noteworthy that the general basis
of this identity has been formed through the mixture of the three major sources of
Brazilian musical creativity - folk, urban pop and classical music, with all their
diversity of style, language and expression.
Edino Krieger
Edino Krieger nasceu em Brusque, Santa Catarina, em 1928, estudou violino
inicialmente com seu pai e depois no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de
Janeiro, estudou composição com Koellreutter, Aaron Copland, Peter Menin e Lennox
Berkeley, no Rio de Janeiro, em Tanglewood, Nova Iorque e Londres, exerceu diversos cargos
públicos na área da música e em 1998 foi eleito Presidente da Academia Brasileira de
Música.

As metáforas na música
Este artigo versa sobre as intencionalidades dos compositores ao escrever música e a
semântica particular das linguagens artísticas. Os novos compositores precisam
desenvolver suas capacidades de criação através da metáfora e os intérpretes,
aprofundar os estudos da metáfora aplicada à inguagem musical, para interpretar
corretamente as obras musicais. É o binômio DECODIFICAR, isto é, saber as escritas e as
regras de música e INTERPRETAR, quer dizer, saber as intencionalidades dos compositores,
que permite desvendar a VERDADE de sua música através da metáfora musical.
Abstract
This article deals with the intentionality of composers when writing music and the
particular semantics of artistic languages. New composers need to develop their capacity
to create through metaphor, while performers are supposed to delve into metaphor studies
applied to musical language, so they can play musical pieces correctly. It is the relation
existing between decoding, that is to say, the knowledge of musical writings and rules,
and performing, namely to perceive the intentionality of composers, which allow one to
unveil the truth of their music through musical metaphor.
Frederico Richter (Frerídio)
Compositor e regente gaúcho, nasceu em 1932. Doutor em Música pela Universidade
Federal do Rio Grande do Sul e Pós-Doutor em Música Eletrônica e Composição Musical
pela MacGill University de Montreal, Canadá. É professor pesquisador na Universidade
Federal de Santa Maria (RS), criador e fundador da Orquestra Sinfônica de Santa Maria,
junto à Universidade. Suas obras são apresentadas na Europa, América, Ásia e por todo
Brasil. Seu nome aparece em dicionários de música, desde o Whos Who in Music de
Cambridge até os dicionários nacionais.

O Silêncio
Neste artigo Jorge Antunes desenvolve raciocínios e reflexões acerca dos conceitos de
ruído e de silêncio. De acordo com a sua teoria da Correspondência entre os Sons e as
Cores que estabeleceu as bases da música cromofônica Antunes afirma que os
ruídos são cinzas e que o silêncio, a ausência de luz (cores) é preto. Mas o autor
demonstra que o silêncio absoluto não existe. Sendo a obra musical um conjunto de signos
desejados e organizados, o autor conclui que ruído e silêncio, são conjuntos de signos
não desejados. O pano de fundo sobre o qual se inserem as músicas, nada mais seriam do
que um mundo de silêncios relativos que são ruídos. As argumentações levam à
constatação de que os silêncios mudam de cor e que a busca de uma melodia de silêncios
seria uma projeto pertinente. As reflexões apontam para a necessidade de um maior empenho
dos compositores na busca, na construção e na organização de novos silêncios.
Abstract
In this article, Jorge Antunes develops his reasoning and reflections on the concepts of
noise and silence. According to his theory about the Correspondence Between Sounds and
Colours - which has established the basis for chromophonic music - Antunes claims that
noises are grey-coloured and the silence, the absence of light (colour), is black.
However, the author demonstrates that absolute silence does not exist. Since any musical
work is a set of desired and organised signs, Antunes implies that noise and silence are a
non-desired set of signs. The common background upon which music is laid is nothing more
than a world of relative silences, which are actually noises. His arguments lead to the
conclusion that silence changes colours, and the quest for a melody made up of silence is
also a pertinent project. His reflections point towards the need for a greater commitment
by composers in the search, construction and organisation of new silences.
Jorge Antunes
Compositor, regente, professor titular do Departamento de Música da Universidade
de Brasília e membro efetivo da Academia Brasileira de Musica onde ocupa a cadeira
número 22. É Doutor em Estética Musical pela Sorbonne, Université de Paris VIII. Foi
precursor da música eletrônica no Brasil em 1962 e criador da técnica cromofônica de
composição musical que utiliza a correspondência entre os sons e as cores. Atualmente
é pesquisador do CNPq e presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica.

Rio Antigo: as pequenas bandas de música e o
"perigo alemão"
Nem todos os múltiplos aspectos de que se compunha a vida musical do velho Rio de Janeiro
foram já estudados exaustivamente. O autor recorda aqui o papel desempenhado pelos
pequenos conjuntos musicais que atuavam na cidade na segunda metade do século XIX e
desapareceram na segunda década do século XX. De várias origens, contribuíram em
muitas solenidades e outras ocasiões, emprestando-lhes um toque festivo, além de
divulgarem as novidades musicais européias, em uma época quando ainda não se sonhava
com a radiodifusão e começava a engatinhar a indústria fonográfica.
Abstract
Not all the divers aspects of musical life in old-time Rio de Janeiro have been
sufficiently studied. The author recalls here the role played by small musical ensembles
in the city along the second half of the nineteenth-century, which disappeared in the
1920s. Coming from various origins, they played at ceremonies and other festive
occasions, lending them a cheerful aspect, besides diffusing European musical novelties,
at a time when broadcasting was something unheard of and the record industry was still an
incipient business.
Carlos Wehrs
Nascido em 1927, médico e doutor em Medicina ( UFF), sócio titular do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro; autor, entre outros livros, de "Meio século de
vida musical no Rio de Janeiro, 1889 - 1939" ( Inst. Hist. Geogr. Bras., 1990 ) e
"Machado de Assis e a magia da música" ( Sette Letras, 1997 ). Detentor de
diversos títulos honoríficos e condecorações de natureza cultural.

Camargo Guarnieri - o mestre, o músico, o homem
Além da criação de uma vasta obra musical, essencialmente brasileira,
alicerçada num estilo muito pessoal, Camargo guarnieri elaborou uma estrutura pedagógica
consciente e consistente, fruto de suas próprias reflexões, estudo, análise,
propiciando o surgimento de toda uma geração de compositores que ampliaram
substancalmente o acervo de nossa cultura musical.
Abstract
Besides the creation of a vast musical work, essentially Brazilian, founded on a very
personal style, Camargo Guarnieri developed a very conscious and consistent pedagogical
structure, a result of his own reflections, studies, and analyses, paving the way for the
rise of a whole generation of composers that increased substantially our musical heritage.
Eduardo Escalante
Compositor, regente, folclorista, professor universitário (Inst. de Artes -
Univ. Est. Paulista), autor de mais de 300 obras. Tendo composto para quase todos os
gêneros musicais, da sua produção destacam-se a Sinfonia Nº 1, o poema
coral-sinfônico Sertões, três concertantes, quinze prelúdios para piano, quinze duos
para instrumentos diversos, trios, quartetos, inúmeras peças para instrumentos solistas
e uma ópera (O Pagador de Promessas).
eescala@mandic.com.br
http://pessoal.mandic.com.br/~eescala

Carlos Gomes e sua música no Brasil novecentista
Conferência pronunciada no Museu de Arte de Belém, em 12/9/1996, na semana comemorativa
do centenário de morte do compositor. Enfatiza a posição de Carlos Gomes no contexto
histórico brasileiro no momento da emergência do Romantismo.
Abstract
A conference held at Museu de Arte de Belém on 12 September 1996, during the week in
commemoration of the hundredth anniversary of the composers death. It emphasises the
position of Carlos Gomes in the Brazilian historical context at the moment of
Romanticisms rise.
Vicente Salles
Antropólogo, folclorista e historiador. Nasceu no Pará em 1931. Muito jovem ligou-se à
banda de música de Castanhal. Na capital do estado, interessou-se pela liteartura e pelo
folclore. Em 1954, transferiu-se para o Rio de Janeiro, completando a formação
acadêmica na Faculdade Nacional de Filsosofia. Publicou livros sobre folclore, história,
música e colaborou na produção de cerca de 40 discos, divulgando música popular e
folclórica, o repertório brasileiro de banda de música. Membro da Academia Brasileira
de Música e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

Identidade brasileiras e representações musicais:
músicas e ideologias da nacionalidade
Os debates em torno de uma identidade nacional brasileira experimentaram relevância
variável ao longo do século XX. Ao discutir os possíveis envolvimentos da música e do
discurso musicológico em tais discussões, lança-se mão de noções como valor e
mercado, entendidas como categorias que transcendem seu usual entendimento no campo das
ciências econômicas. Assim, procura-se desenhar um quadro em que a música e o discurso
a ela associado são conformados -e, simultaneamente, ajudam a conformar - ideologias
distintas da nacionalidade.
Abstract
Debates about the concept of a Brazilian national identity have been held with various
relevance in the twentieth-century. To discuss the possible involvement of music and
musicological discourse in such debates, it is necessary to resort to notions such as
value and market, seen as categories that transcend their usual understanding in the field
of economic sciences. Thus, Araújo endeavours to picture a scene in which music and its
discourse are established ¾ and, at the same time, help to establish ¾ distinct
ideologies of nationality.
Samuel Araújo
Doutor (Ph.D.) em Etnomusicologia pela Universidade de Illinois (EUA), professor
de Etnomusicologia da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
pesquisador do CNPq e da FAPERJ, membro do conselho diretor do International Council for
Traditional Music - ICTM.

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