  Revista Brasiliana
Número 2 - Maio de 1999
Coordenação Editorial - José Maria Neves
Capa: Ilustração de Glauco Rodrigues
Projeto Editorial e Edição: Heloisa Fischer
Projeto Gráfico e Diagramação: Mila Waldeck
Traduções: Paulo Henriques Brito
Revisão: Cristiane Dantas
Tiragem: 1.000 exemplares
- Editorial,
por Edino Krieger, presidente da Academia Brasileira de Música
Resumo dos artigos (em português e inglês) e perfil dos
autores
- A música do século XX no Acervo
Janacopoulos/Unirio
- Quadros Analíticos - Errata
... Manoel Correa do Lago
- Música experimental ainda existe?
... Jocy de Oliveira
- Repertório brasileiro para piano
(1950-1990)
... Salomea Gandelman
- Lembranças importantes de uma amizade
muito importante
... Heitor Alimonda
- Música dodecafónica y serialismo en
América Latina
... Graciela Paraskevaídis
- Métrica Derramada: prosódia musical na
Canção Brasileira Popular
... Martha Tupinambá de Ulhôa
Editorial
O interesse despertado pelo primeiro número da revista Brasiliana, registrado em
manifestações de leitores e instituições do país e do exterior entre as quais
uma solicitação de autorização para reprodução de matérias por parte de uma
instituição musical da África nos traz a convicção do acerto da iniciativa e
das perspectivas para sua continuidade. Interesse demonstrado também pela quantidade e a
qualidade das colaborações recebidas, que permitiriam até mesmo prever uma
periodicidade mais freqüente no próximo ano.
Neste segundo número, a par da valiosa colaboração dos autores das diversas matérias,
assinalamos a contribuição, na elaboração da capa, do artista plástico Glauco
Rodrigues, o que poderá permitir a continuidade de uma experiência iniciada com Carlos
Scliar e que poderá prosseguir com a colaboração de outros mestres brasileiros da
pintura e da gravura, consolidando assim um vínculo entre a música e as artes
plásticas, que de resto apresentam tantas interfaces.
Registramos ainda, neste número, a homenagem da Academia Brasileira de Música aos 80
anos de Claudio Santoro, um dos mais prestigiosos integrantes da instituição, presença
cada vez mais viva não obstante sua ausência de dez anos.
Assinalamos, finalmente, o processo de crescimento da ABM, com o lançamento de sua
revista, a retomada da série Brasiliana na Casa de Rui Barbosa, a criação da série
Trajetórias de palestras, coordenada pelo acadêmico Ricardo Tacuchian, a ampliação da
Bibliografia Musical Brasileira, sob a coordenação da acadêmica Mercedes Reis Pequeno e
já disponível no site da Academia, e agora também, em fase
inicial, a criação de um Centro de Informações de Música Brasileira e de um Banco de
Partituras de Música Brasileira para Orquestra, para atendimento à demanda de partituras
e materiais por parte de orquestras do país e do exterior.
Finalmente, vale registrar que todos os concertos e palestras promovidos pela Academia
estão sendo gravados documentalmente com equipamentos próprios, já adquiridos, para o
Arquivo Sonoro e Acervo de Memória da ABM.
Edino Krieger
A música do século XX no Acervo
Janacopoulos/Unirio
O artigo é uma descrição parcial da Coleção de partituras, - conservada na Biblioteca
da Unirio -, da cantora brasileira Vera Janacopulos (1892-1955), cujo papel na difusão da
obra vocal de compositores como Stravinski, Prokofiev, Falla, Villa-Lobos, Milhaud e
Poulenc, foi extremamente destacado no período que sucedeu à 1a Guerra Mundial. Entre as
numerosas primeiras edições, manuscritos e autógrafos, destacam-se manuscritos
originais de obras das quais VJ realizou a primeira audição: de Stravinski, as
instrumentações de 1923 para "Pastorale" e "Tilimbom"; de Prokofiev,
a orquestração de "A Rosa e o Rouxinol"; de Milhaud, os "4 Poemas de
Catulo" (para voz e violino); de Villa-Lobos, a orquestração de "Viola".
A presença de uma cópia autógrafa de Villa-Lobos, datada de 1920, dos
"Pribaoutki" (de Stravinski) permite novas hipóteses quanto ao conhecimento da
música contemporânea no Rio, antes de sua primeira viagem a Paris em 1923; por outro
lado, os programas e críticas dos recitais de VJ nos anos 20 trazem algumas precisões a
respeito de primeiras audições de obras de Villa-Lobos, e na reconstituição dos
primeiros concertos com sua música em Paris. A coleção revela duas transcrições para
orquestra inéditas e não-catalogadas: de Prokofiev, a melodia "A Rosa e o
Rouxinol" de Rimski-Korsakov, e de Villa-Lobos a melodia "Phidylé" de
Reynaldo Hahn. Deve ser observado o número e a qualidade excepcionais das dedicatórias
autógrafas (Fauré, Ravel, Stravinski, Roussel, Milhaud, Poulenc, Bloch, Markevitch,
Mignone, Mengelberg, Mitropoulos etc) que constituem um testemunho eloqüente da posição
alcançada por Vera Janacopoulos.
Quadros Analíticos referentes
ao Acervo Janacopoulos/Unirio , que complementam o artigo:
1- Obras dedicadas a V. J.
2-Partituras de Orquestra
3- Manuscritos Autógrafos
4- Manuscritos Não- Autógrafos
5- Coleção Stravinski
6- Coleção Villa-Lobos
7- Compositores do sec. XX representados no Acervo
8- Partituras com dedicatórias autógrafas
Abstract
The present paper attempts a partial description (limited to the XXth century) of the
Brazilian singer Vera Janacopoulos (1892-1955) Scores Collection, presently located
at the University of Rio (Unirio) Library. The description is focused on few composers
(Stravinski, Prokofiev, Falla, Villa-Lobos, Milhaud and Poulenc), with whom VJ had a close
personal and professional connection, having played an important role in the diffusion of
their vocal work, on the wake of World War One. The collection is extremely representative
of the vocal repertoire written in the first decades of the century, and is particularly
rich in 1st editions, manuscripts and autographs (manuscripts and signed printed copies).
Among its highlights are the autograph manuscripts of Stravinskis 1923
instrumentations of "Pastorale" and "Tilimbom", Prokofievs
orchestration of "La Rose et le Rossignol", Milhauds "4 Poèmes de
Catulle" (for voice/violin), and Villa-Lobos "Viola" (orchestral
transcription), all of which were written for VJ and premiered by her. The presence of a
1920 Villa-Lobos autograph copy of Stravinskis "Pribaoutki" throws some
new perspectives on the composers awareness of contemporary music before his 1923
trip to Paris; on the other hand, programs and criticism of VJ concerts in the
1920s, bring new elements with respect to first auditions and early concerts with
Villa-Lobos music in Paris. The collection reveals the existence of two non-catalogued
orchestral transcriptions: Rimski-Korsakovs "La Rose et le Rossignol" by
Prokofiev, and Reynaldo Hahns "Phidylé" by Villa-Lobos; it should also be
noted that the extent and quality of the autograph signed copies (Fauré, Ravel,
Stravinski, Roussel, Milhaud, Poulenc, Bloch, Markevitch, Mignone, Mengelberg,
Mitropoulos, etc.....) are an eloquent testimony to Vera Janacopoulos role and
musicianship.
Descriptive Tables (of the Janacopoulos/Unirio
Collection) which complement this paper
1- Works dedicated to V. J.
2- Full-Scores
3- Autograph Manuscripts
4- Other Manuscripts
5- Stravinskis Scores
6- Villa-LobosScores
7- XXth-Century Composers represented in the Collection
8- Signed Copies
Manoel Correa do Lago é bacharel em
Ciências Econômicas pela UFRJ (1977) e Master in Public and International Affairs (M.P.A
.,1980) pela Woodrow Wilson School da Universidade de Princeton. Estudou Teoria Musical
com Annette Dieudonné e Esther Scliar), Piano com Madeleine Lipatti, Arnaldo Estrella e
Heitor Alimonda, Orquestração com Henrique Morelembaum, Harmonia/Contraponto com Nadia
Boulanger e Michel Phillipot, Composição/Análise com Nadia Boulanger e nos Pro-Seminars
in Music Composition de Claudio Spies e Milton Babbitt, em Princeton.
Música experimental ainda existe?
A autora levanta algumas questões sobre o experimentalismo na música tanto no plano
internacional como brasileiro. Estas instigantes observações são abordadas muitas vezes
sob um prisma pessoal e baseadas na sua própria vivência. Na sua carreira de pianista e
intérprete de música contemporânea, o contato com Stravinsky, Messiaen, Cage, Santoro e
Berio valeu uma fascinante bagagem de conhecimento e memória. A autora também se refere
a sua própria obra oferecendo um testemunho de seu inquietante processo criativo.
Abstract
The author raises some issues concerning experimentalism in music, both in Brazil and on
the international level. Her insightful observations are often marked by a personal touch
and informed by her own experience. She is a pianist and an interpreter of contemporary
music, and her contacts with Stravinsky, Messiaen, Cage, Santoro, and Berio have given her
a fantastic repertoire of knowledge and memory. Oliveira also discusses her own work,
providing a glimpse into her own restless creativity.
Jocy de Oliveira está envolvida com
uma variedade de mídias desde o início dos anos 60, convicta de que a expressão sonora
é universal. Tem ulitizado instrumentos acústicos e eletrônicos, teatro musicado,
instalações, textos, grafismos, video, público e dança, aproximando-se de um
desenvolvimento orgânico de performance e composição. É a compositora mais proeminente
do Brasil, com seis óperas e peças para teatro musicado apresentadas com êxito em
diversas produções pelo mundo. Como pianista, tem dezessete discos lançados com obras
suas e de outros compositores contemporâneos. Autora de quatro livros publicados no
Brasil e nos EUA, ela também criou e produziu diversos videos. Recebeu diversas bolsas e
premiações como Rockfeller Foundation, CAPS, New York Council on the Arts, Pan American
Union, Vitae e Rioarte. É membro da Academia Brasileira de Música.
Repertório brasileiro para piano
(1950-1990)
O artigo apresenta um breve panorama do repertório pianístico brasileiro composto nas
quatro últimas décadas, abordando aspectos composicionais, estéticos e interpretativos
de algumas obras representativas das diferentes tendências que marcaram a música desse
período.
Abstract
This article is a brief introduction to the Brazilian piano repertoire of the last four
decades, including an examination of compositional, aesthetic, and interpretive aspects of
works representative of the different trends of the period.
Salomea Gandelman é professora de
Piano e Práticas Interpretativas nos cursos de graduação e mestrado em música
brasileira do Instituto Villa-Lobos da Universidade do Rio de Janeiro, Uni-Rio. Além de
artigos publicados nas revistas Art (da Escola de Música da UFBa), Brasileira de Música
(da Escola de Música da UFRJ), Debates (cadernos do programa de Pós- Graduação em
Música do Centro de Letras e Artes da Uni-Rio) e em Anais da Associação Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM) fez a introdução e organização do
livro Estética, dos professores. H. J.Koellreutter e S. Tanaka (Novas Metas, S. Paulo,
1983) e escreveu 36 Compositores Brasileiros: Obras para Piano (1950 - 1988), (Funarte/
Relume Dumará, Rio de Janeiro, 1997).
Lembranças importantes de uma amizade
muito importante
A criação do compositor Claudio Santoro se confunde com sua própria vida nos
arroubos líricos e sentimentais que o envolvem. Seja no seu tremendo romantismo que lhe
prega peças pela vida adentro, seja pelas heranças genéticas e geográficas que em
muito moldaram sua personalidade.
Abstract
The work of composer Claudio Santoro is inextricable from his own life, both being marked
by lyrical and sentimental raptures. His tremendously romantic nature, partly inherited
and partly geographically determined, was a major component of his personality, and was
for him a constant source of trouble. Nineteen ninety-nine is both his eightieth birthday
and the tenth anniversary of his death.
Heitor Alimonda é professor
emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em total atividade na Escola de
Música como professor titular de piano e orientador nos cursos de mestrado. Em 1991, o
jornal O Globo assim o definiu: uma das maiores autoridades em matéria de ensino do
seu instrumento, Alimonda é também um dos valores mais firmes da cultura brasileira, na
tríplice função de recitalista, compositor e camerista.
Música dodecafónica y serialismo en
América Latina
A música dodecafônica foi introduzida na Argentina em 1934 por Juan Carlos Paz e no
Brasil em 1937 por Hans-Joachim Koellreutter, coincidindo com a geração nacionalista
pioneira no continente. A Agrupación Nueva Música e o Grupo Música Nova
impulsionaram-na com diferentes objetivos e resultados, o último produzindo manifestos
altamente progressivos e provocando fortes reações a nível nacional, quando estética e
ideologia eram discutidas lado a lado. Em outros países da America Latina, o
dodecafonismo surgiu mais lentamente na década de 40 ou após a II Guerra Mundial. Neste
caso, não significava mais uma escolha subversiva contra a estagnação musical e sim um
envolvimento com a vanguarda, onde estão rpesentes diferentes níveis de criatividade e
epigonalismo.
Abstract
Twelve-tone music was introduced in Argentina in 1934 by Juan Carlos Paz and in Brazil
in 1937 by Hans-Joachim Koellreutter, coincidently with a pioneer nationalistic generation
in the continent. The "Agrupación Nueva Música" and the "Grupo Música
Viva" impulsed it with different aims and results, the latter producing highly
progressive manifestos and provoking strong reactions at a national level, where
aesthetics and ideology were discussed hand in hand. In other Latin American countries,
dodecaphonism appeared more slowly around the forties or after the second world war. In
this case, it no longer meant a subversive choice against music stagnation but an
involvement with avantgarde where different degrees of creativity or epigonalism are
present.
Graciela Paraskevaídis (cidadã
uruguaia nascida na Argentina em 1940) realizou seus estudos de música em Buenos Aires e
em Freiburg, Alemanha. Tem desenvolvido ampla atividade composicional, docente e
musicológica, esta última preferentemente no âmbito da música erudita latino-americana
do século XX. Colabora regularmente em publicações especializadas da América Latina e
da Europa. É co-editora do World New Music Magazine, órgão oficial da Sociedade
Internacional de Música Contemporânea.
Métrica Derramada: prosódia musical na
Canção Brasileira Popular
Texto trata da sincronização entre canto e acompanhamento e de acentuação na canção,
apresentando o conceito de métrica derramada. Na canção brasileira popular, a noção
de compasso como acontece na concepção temporal européia é
mantida, mas este compasso é flexibilizado, tanto nos seus limites, quanto na sua
estrutura interna que é modificada em termos da hierarquia das pulsações.
Abstract
This text is concerned with the synchronization between voice and accompaniment and
with stress patterns in song, and introduces the concept of malleable meter. In Brazilian
popular song, the notion of measure is taken over from the European concept of time, but
it is made more flexible as regards both its limits and its internal structure, where the
hierarchy of beats is modified.
Martha Tupinambá de Ulhôa é
doutora em musicologia pela Cornell University e professora titular da UNIRIO junto ao
Instituto Villa Lobos e Programa de Pós-Graduação em Música, onde leciona musicologia
e etnomusicologia. Como pesquisadora tem-se dedicado aos estudos da música popular, em
especial na área de estética.

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