Capa da Brasiliana - N.1Brasiliana

Revista Brasiliana
Número 1 - Janeiro de 1999

Coordenação Editorial - José Maria Neves

Capa: Ilustração de Carlos Scliar
Projeto Editorial: VivaMúsica!
Edição: Heloisa Fischer
Projeto Gráfico e Diagramação: Mila Waldeck
Traduções: Paulo Henriques Brito
Revisão: Cristiane Dantas
Tiragem: 1.000 exemplares


- Editorial, por Edino Krieger, presidente da Academia Brasileira de Música

Resumo dos artigos (em português e inglês) e perfil dos autores

- Repente e música popular: a autoria em debate
... Elizabeth Travassos

- A Seção de Música no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo
... Paulo Castagna

- Grupo de Compositores da Bahia: implicações culturais e educacionais
... Ilza Nogueira

- A renúncia fiscal como descumprimento do dever do Estado
... Jorge Antunes

- Expressões musicais do pluralismo religioso afro-baiano: a negociação da identidade
... Gerard Béhague

- Jocy de Oliveira e Norton Morozowicz na Academia Brasileira de Música
... Ricardo Tacuchian


Editorial
Com o lançamento da revista Brasiliana, a Academia Brasileira de Música inaugura um espaço – que esperamos permanente – dedicado exclusivamente à música brasileira. Um espaço aberto à reflexão, à crítica, à análise, à discussão, ao registro da vasta e diversificada produção musical do país, nos 500 anos do seu descobrimento pelos navegadores lusos e nos milênios de uma cultura musical nativa que os antecedeu e que permanece viva até hoje. Aberto ao resgate da memória de um passado remoto e recente extremamente fecundo, e cuja integração ao presente é condição para o encontro do futuro. Aberto, ademais, ao reconhecimento e ao registro da contribuição de todos os segmentos formadores de nossa história e atuantes em nossa vida musical presente – criadores, intérpretes, pesquisadores, musicólogos, professores, estudiosos, organizadores, promotores, patrocinadores e consumidores desse universo feito de sonho e de trabalho e cuja magnitude carece ainda de um dimensionamento adequado.
Com a revista Brasiliana, espera a Academia Brasileira de Música dar cumprimento à sua vocação precípua de instituição voltada para o engrandecimento da música brasileira, certa de estar assim atendendo aos objetivos que terão norteado seu fundador e patrono, Heitor Villa-Lobos, com seu ardente e comprovado teor de brasilidade, quando criou a Academia, em 1944, plantando mais uma pedra sólida em seu sonho, que é também o nosso, de um futuro brilhante para a música brasileira.

Edino Krieger

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Repente e música popular: a autoria em debate
O artigo discute um caso de conflito em torno da autoria de uma canção e procura mostrar que duas visões diferentes da relação entre autor e obra podem ser detectadas nos argumentos dos envolvidos: de um lado, a visão dos cantadores-repentistas, praticantes da poesia cantada de improviso; de outro, a visão consagrada na legislação relativa à autoria, partilhada pelos músicos ligados ao grande mercado de música popular. Procura-se mostrar que existem, na sociedade moderna regida por leis de aplicação "universal", sensíveis diferenças quanto às representações e práticas musicais.

Abstract
The article discusses the disputed authorship of a song and attempts to demonstrate that two different views of the author-work relationship may be detected in the arguments used by the parties involved: on the one hand, the view of repentistas, practitioners of a form of improvised singing; on the other, the view underlying copyright law, which is shared by musicians producing popular music for a mass market. The article proposes to show that, in a modern society ruled by laws that are "universally" applicable, clear differences exist as to forms of musical representation and practice.

Elizabeth Travassos é doutora em antropologia social pelo Museu Nacional da UFRJ. Leciona folclore e etnomusicologia no Instituto Villa-Lobos da Uni-Rio desde 1996. No antigo Instituto Nacional do Folclore da Funarte, ao qual esteve ligada entre 1983 e 1996, desenvolveu pesquisas de campo sobre música popular e foi editora dos discos da coleção Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro. É autora de Os mandarins milagrosos. Arte e etnografia em Mário de Andrade e Béla Bartók (Jorge Zahar, 1997).

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A Seção de Música no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo
O Arquivo da Cúria Metropolitana preserva uma parcela significativa do antigo arquivo musical da Catedral de São Paulo, constituído principalmente de música religiosa, impressa e manuscrita, de fins do século XVII a meados do século XX. Este artigo apresenta o estágio atual do processo de organização da Seção de Música do ACMSP, proporcionando uma pequena idéia acerca de seu conteúdo, história e características. Da "Série Manuscritos Musicais Avulsos dos Séculos XVII e XIX", elaboramos uma relação simples de copistas e compositores disponíveis, com a quantidade aproximada de obras por autor.

Abstract
The archives of the São Paulo Metropolitan Bishopric hold a significant part of the former music archives of the São Paulo Cathedral, containing mostly sacred music, in printed or manuscript form, from the late seventeenth century to the mid twentieth century. The article discusses the present stage of the organization of the Bishopric’s Music Section, briefly describing its contents, history and characteristics. On the basis of the "Seventeenth- and Nineteenth-Century Sundry Musical Manuscripts Series," we drew a simple list of available copyists and composers, including the approximate number of works by each author.

Paulo Castagna é pesquisador de música brasileira licenciado pelo Depto de Música da ECA-USP em 1987, onde, em 1992, defendeu o mestrado. Desenvolve, atualmente, o doutorado no Depto de História da FFLCH-USP. Foi bolsista do CNPq, da FUNARTE e da FAPESP, produzindo monografias, livros, CDs, artigos, partituras, concertos, cursos de extensão e séries para o rádio e para a televisão, colaborando com o Instituto de Estudos Brasileiros da USP, a Cultura FM de São Paulo, o Instituto Cultural Itaú (SP), a Escola de Música e Belas Artes do Paraná e o Instituto de Filosofia, Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto. É professor e pesquisador do Instituto de Artes da UNESP (SP), sendo um dos coordenadores do Simpósio Latino-Americano de Musicologia, promovido pela Fundação Cultural de Curitiba.

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Grupo de Compositores da Bahia: implicações culturais e educacionais
Escrito por ocasião do trigésimo aniversário da fundação do Grupo de Compositores da Bahia (1996), este trabalho tem por objetivo uma apresentação histórica do Grupo. Traça a trajetória de uma década de trabalho coletivo, desde a proposição inicial e primeiros sucessos locais às grandes conquistas no exterior, finalmente chegando às razões da dissolução progressiva do trabalho de grupo, a partir de 1974. Focaliza os empreendimentos culturais e educacionais que fizeram do Grupo um núcleo de criação, educação e difusão musical singular no país. Singular tanto no sentido do desenvolvimento de uma linguagem musical eclética, conciliando o nacional e o internacional, a renovação e a tradição, quanto no sentido do trabalho pioneiro de Educação Musical Informal, atuante na formação de um público informado da contemporaneidade musical, interagindo nos projetos composicionais e participando ativamente nos projetos culturais do Grupo.

Abstract
Written in 1996, upon the occasion of the thirtieth anniversary of the foundation of the Grupo de Compositores da Bahia (Group of Comporers of Bahia), the article presents the history of the Group. It tells the story of a ten-year period of collective work, from the initial proposal through the early local success, the major achievements abroad, to the reasons behind the gradual dissolution of the group beginning in 1974. Emphasis is given to the cultural and educational initiatives that made the Group a unique center for musical creation, training, and diffusion. Its uniqueness lay both in its development of an eclectic musical language that conjoined national and international elements, innovativeness and tradition, and in its pioneering work in Informal Music Education, which helped create a knowledgeable audience for contemporary music, interacting with composers and actively participating in the Group’s cultural projects.

Ilza Maria Costa Nogueira é natural de Salvador. Após dupla graduação na Universidade Federal da Bahia (Licenciatura em Letras, 1971 e Bacharelado em Instrumento - Piano, 1972), especializou-se em Composição na Escola Superior de Música de Colônia, sob a orientação de Mauricio Kagel. Em 1978 ingressou como docente do ensino superior de Música na Universidade Federal da Paraíba, instituição em que desenvolveu sua carreira profissional durante os últimos 20 anos. Obteve as titulações acadêmicas de Master of Arts (1983) e Doctor of Philosophy (1985) pela Universidade Estadual de New York em Buffalo, em Composição. Em 1990, realizou pesquisa em teoria da Música no Departamento de Música da Universidade de Yale, na condição de Post-Doctoral Fellow. É membro fundador e primeiro presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música (ANPPOM) e da Associação Brasileira de Educação Musical (ABEM). Desde 1987 atua como consultora ad hoc da Fundação CAPES e do CNPq. Como compositora, sua produção mais expressiva é camerística. Como pesquisadora, desenvolve estudos no campo da teoria analítica e da teoria composicional, centrando-se no repertório contemporâneo pós-tonal e, atualmente, focalizando a Escola de Composição da UFBA.

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A renúncia fiscal como descumprimento do dever do Estado
Em 1922, a Câmara dos Deputados do Brasil aprovou uma subvencao para que Villa Lobos pudesse realizar concertos na Europa. Esta ajuda do Estado brasileiro fez com que as portas do velho mundo se abrissem para o maestro. Neste artigo Jorge Antunes demonstra, com argumentos fortes e com muita ironia, que a arte nova e revolucionária não pode avançar e contribuir para a cultura nacional se for colocada à mercê do mercado. O Estado brasileiro não abandonou seu dever e apoiou Villa Lobos. Os empresários e o público consumidor nunca haverão de sustentar a nova e revolucionária produção artística, cujo retorno é' de longo prazo. Com este raciocínio, o articulista conclui acerca da nova censura imposta a arte de vanguarda, na medida em que com a Lei do Mecenato o governo, universalizando a onda neoliberal, privatiza também o apoio à cultura.

Abstract
In 1922, Brazil’s Chamber of Deputies approved a grant to Villa-Lobos so that he could give concerts in Europe. Thanks to state support, the doors of the Old World were opened for him. In this article, Jorge Antunes demonstrates, with solid arguments and keen irony, that new, revolutionary art cannot develop and contribute to national culture if it is left to the whims of the market. In the case of Villa-Lobos, the Brazilian state did its duty and supported a major artist. Business and the public will never support new, revolutionary art, which yields only long-term returns. The author concludes that a new form of censorship has been imposed on avant-garde artists with the enactment of the Patronage Law, by means of which the government, universalizing the neoliberal wave, also privatizes support to culture.

Jorge Antunes nasceu no Rio de Janeiro em 1942. Realizou sua formação tradicional na Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Em 1962, fundou o Estúdio de Pesquisas Cromo-Musicais, se destacando como precursor da Música Eletrônica no Brasil. Realizou estudos pós-graduados na Argentina, Holanda e França. No exterior foi aluno de Alberto Ginastera, Luis de Pablo, Umberto Eco, Gotfried Michael Koenig, Pierre Schaeffer e François Bayle. Recebeu vários prêmios em concursos nacionais e internacionais de composição. Suas partituras estão publicadas pelas editoras Salabert, Suvini Zerboni, Breitkoff&Hartell, Billaudot e Sistrum. Doutorou-se em Estética Musical pela Sorbonne com a tese Son Nouveau, Nouvelle Notation. É professor titular na Universidade de Brasília, presidente da Sociedade Brasileira de Música Eletroacústica e membro da Academia Brasileira de Música onde ocupa a cadeira número 22.

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Expressões musicais do pluralismo religioso afro-baiano: a negociação da identidade
O presente ensaio aborda a questão da tradicional música religiosa afro-baiana na construção da identidade contemporânea no contexto do movimento negro de Salvador, Bahia. No pluralismo religioso da região, a centralidade e conseqüente hegemonia dos iorubas são explicadas em termos históricos. O autor discute alguns dos fatores que dão forma aos significados simbólicos das manifestações musicais do pluralismo religioso existente, e tenta explicar a dinâmica dessas manifestações como reflexo da manipulação da "identidade". Como meio expressivo natural, a música parece ser essencial para a revelação da manifestação do ethos e do pathos da religião. No candomblé, as canções religiosas e o acompanhamento de percussão possuem o poder dinâmico do som como agente veiculador do axé, a "força que possibilita a existência dinâmica". O ensaio examina também o mecanismo da iconicidade nos repertórios tradicionais, e mostra a eficácia da homologia entre afetos psicológicos e certos repertórios musicais. Por fim, a relação entre tradição e identidade-etnia é reexaminada em termos dos ideais estéticos e do imenso poder icônico da música de candomblé.

Abstract
This essay addresses the issues of traditional Afro-Bahian religious music in the contemporary identity construction within the movement of Black ethnicity in Salvador, Bahia. In the religious pluralism of the area, Yoruba centricity and consequent hegemony are explained in historical terms. The author discusses some of the factors that inform the symbolic meanings of the musical expressions of the existing religious pluralism, and attempts to explain the dynamics of these expressions as reflexion of the manipulation of "identity.". As a natural expressive means, music appears essential for the revelation of the expression of the ethos and pathos of the religion. In candomblé, the religious songs and drum accompaniment possess the dynamic power of sound, as an agent channeling the axé, the "force that makes possible the dynamic existence." The essay also considers the mechanism of iconicity found in the traditional repertories, and shows the effectiveness of the homology between psychological affects and certain musical repertories. Finally the relationship of tradition and identity-ethnicity is reviewed in terms of aesthetic ideals and the enormous iconic power of candomblé music.

Gerard Béhague é professor catedrático de musicologia e etnomusicologia na Universidade do Texas (EUA) desde 1974. Durante nove anos foi diretor da escola de música daquela instituição. Foi presidente da Society for Ethnomusicology e editor da revista Ethnomusicology. Depois de formar-se na Escola de Música da UFRJ e no Conservatório Brasileiro de Música, estudou Musicologia na Sorbonne e na Tulane University (Nova Orleans) onde recebeu o seu Ph.D e teve como principal orientador Gilbert Chase. Suas publicações incluem vários livros (entre os quais Music in Latin American; an Introduction, traduzido em espanhol e publicado por Monte Avila/Caracas, e Heitor Villa-Lobos: The Search for Brazil's Musical Soul), mais de 120 verbetes no The New Grove Dictionary of Music and Musicians (foi o coordenador dos verbetes sobre a América Latina), e mais de 100 artigos em revistas especializadas. Tem se dedicando a pesquisa sobre música brasileira em geral, mas especialmente música do candomblé baiano e música popular brasileira. É fundador e editor da Revista de Música Latino-Americana (Latin American Music Review), publicada desde 1980 pela University of Texas Press.

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Jocy de Oliveira e Norton Morozowicz na Academia Brasileira de Música
Discurso de boas vindas aos recém-eleitos acadêmicos Jocy de Oliveira (cadeira número 32) e Norton Morozowicz (cadeira número 24). O orador fez um levantamento de nomes ilustres, ligados à ABM. que foram ou são paranaenses como os dois novos acadêmicos. Relembra os ideais de Villa-Lobos ao fundar a ABM em 1945 e ratifica a crença da Academia no significado da tradição e na força do experimentalismo. A trajetória musical de Jocy de Oliveira como pianista e compositora e a de Norton Morozowicz como flautista e regente foram relembradas dentro do panorama musical brasileiro. Uma homenagem especial foi prestada tanto ao patrono da cadeira núemro. 32, Francisco Braga e seu fundador Eleazar de Carvalho, como ao patrono da cadeira número 24, Candido da Gama Malcher e seu fundador Florêncio de Almeida Lima.

Abstract
This is the welcoming speech for newly-elected members of the Brazilian Academy of Music Jocy de Oliveira (chair number 32) and Norton Morozowicz (chair number 24). The speaker evokes a number of former and present eminent members of the Academy who, like the two new members, were born in the state of Paraná. He recalls Villa-Lobos’s ideals when he founded the institution in 1945 and reaffirms the Academy’s belief in the significance of tradition and the strength of experimentalism. The careers of Jocy de Oliveira as pianist and composer and of Norton Morozowicz as flutist and conductor were summarized and placed in the context of Brazilian music. A special tribute was paid to the patron of chair number 32, Francisco Braga, and its founder, Eleazar de Carvalho, as well as to the patron of chair number 24, Candido da Gama Malcher, and its founder, Florêncio de Almeida Lima.

Ricardo Tacuchian é compositor e regente, graduado pela UFRJ e doutor em música pela University of Southern California. Atualmente é Professor Titular de Composição da UNIRIO. Possuidor de inúmeros prêmios e homenagens, recebeu o título de Personality of the Year 1998 do American Biographical Institute, Raleigh, North Carolina. Terra Aberta, para soprano e orquestra, escrita no ano passado, por encomenda da Prefeitura do Rio de Janeiro para comemorar a visita de Sua Santidade o Papa João Paulo II ao Rio, foi lançada recentemente em CD, com Ruth Staerke, Orquestra Sinfônica Brasileira e Roberto Tibiriçá. Como regente, Tacuchian acaba de se apresentar diante da Orquestra Sinfônica de Santa Maria, com um programa inteiramente dedicado a Schumann. No primeiro semestre de 1998, Tacuchian foi Professor Visitante de Composição e de Música Brasileira na State University of New York at Albany, com bolsa da Fulbright.


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